domingo, novembro 07, 2004

Confissões das Mulheres de 30

Chegar aos 30 anos é, para muitas mulheres, sinal de mudança nas suas vidas. Quem é solteira pensa que já poderia (ou deveria, aos olhos da sociedade) ser casada, quem não é mãe começa a recear ser tarde para a maternidade e quase todas começam a notar diferenças no esbelto corpo de outrora. É disso que se fala no palco da Casa do Artista, em Lisboa, a partir de 13 de Outubro.
Estas e outras confissões são feitas ao público por Fernanda Serrano, Maria Henrique e Margarida Marinho, numa comédia do brasileiro Domingos Oliveira, baseada em testemunhos reais, que pretende abordar sem preconceitos preocupações, amores, trabalhos e outros desaires das mulheres de 30 anos. Mas ao longo do espectáculo também são encontradas algumas vantagens da idade: "ter 30 anos é uma posição de abrangência estratégica: pode namorar homens de 20, 30, 50... sem que ninguém lhe chame tarada".


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A adaptação portuguesa, feita por Leonor Xavier, centrou-se em algumas expressões e referências a locais. O resto fica a cargo das actrizes que improvisam, interagem com o público e criam entre si um ambiente de cumplicidade, em tom de desabafo como em conversa de café. E a ficção pode confundir-se com a realidade, com a introdução de vídeos que apresentam as actrizes a chegarem juntas ao teatro ou em simples confissões como o que é dito sobre a gravidez de uma delas (Fernanda Serrano), que cria a dúvida no espectador (na versão original uma das actrizes brasileiras também estava grávida).

Mas o que preocupa, afinal, as mulheres de 30? "Aos 30 anos estamos cheias de uma angústia generalizada que precisamos de exprimir", diz Maria na peça, uma personagem que passou a vida em psicólogos e psicanalistas, a tentar encontrar solução para as suas fobias e infortúnios, e que se separou de um grande amor "por causa de uma celulite". Já a personagem Fernanda acha que "as mulheres bonitas sofrem muito porque se os homens ficam com elas é porque são bonitas; se as rejeitam é porque são umas pessoas horríveis!". As preocupações da personagem Margarida centram-se no envelhecimento do corpo, na urgência de ser mãe e no encontro com o homem certo: "O que é que uma mulher de 30 quer de um homem? Que me compreenda e que goste de mim, porque muitas vezes eu não me compreendo e não gosto de mim."

Se aos 30 anos as preocupações com o envelhecimento do corpo, com o avançar da idade para casar e ter filhos ou com a solidão têm peso, também há factores que podem ser olhados pelo ângulo positivo: "A mulher de 30 já perdeu alguma inocência, não toda; e já está a ganhar alguma sabedoria, não toda", diz o encenador numa das projecções em vídeo. Além disso, "ter 30 anos é um privilégio da vida: temos passado e temos futuro. Tenho medo de não chegar ao fim da estrada, de não ter fôlego, mas não interessa porque o lá, se calhar, não existe", conclui Margarida num dos seus desabafos.

Os espectadores ficam ainda a conhecer os diferentes tipos de homem, numa peça que marca o início da produtora Prati, dirigida, entre outros, por Raul Solnado e Pedro Lima, e que pretende dinamizar a Casa do Artista.